quinta-feira, março 10, 2011

HOJE É UM DIA MELANCÓLICO...

porque hoje estou melancólica, publico um dos melhores poemas que me marcaram desde a adolescência... O grande poeta é Daniel Filipe que já não se encontra entre nós, pois morreu muito novo. Espero que apreciem este excelente poema...

A invenção do amor
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares
à porta dos edifícios públicos
nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado
por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro
que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros
o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos
e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem e uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia iminente a captura
A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam
tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia.

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se, amaram-se e perderam-se no labirinto da cidade.
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los,
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto,
Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita
disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros.
É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas.

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo.

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes.
À mais ligeira dúvida não hesitem, denunciem
Telefonem à polícia, ao comissariado, ao Governo Civil,
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa.

Organizem em cada bairro, em cada rua, em cada prédio,
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade,
o país a civilização do ocidente.
Esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas,
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna.
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater.
É possível que cantem,mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas.
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a infância-Campos verdes floridos,
Água simples correndo
A brisa das montanhas

Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta.

Impõe-se sistematizar as buscas!
Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol
no silêncio das igrejas nas boîtes com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar,
Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos e da mulher.

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer.
Matai-o Amigo irmão que seja matai-o.
Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido a vosso lado matai-o.
Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida até ao fim da noite.
Evitai o apelo a prece derradeira um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável.

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios.
Crê-se que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever…

Mais au bout du chagrin, une fenêtre ouverte,
Une fenêtre éclairée…

(Daniel Filipe)

7 comentários:

SOL da Esteva disse...

"...Um homem e uma mulher que tinham olhos
e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis..."

Ou o Crime de se amar com verdade, sem preconceitos ou temores.

Magnífica personificação do Amor tal como ele é no julgamento das gentes.

Grata e justa homenagem ao teu venerado Daniel Filipe.


Beijo
SOL

Laura disse...

Um nome que passarei a dizer baixinho, um nome que merece ser perpetuado porque se atreveu a lutar contra as mentes obscuras que impediam alguém de ser feliz e viver o amor sem reservas...
Antigamente era assim... Olha o Eça mai'la Ana Plácido, casada com um certo Pinheiro que moveu montanhas para que os encontrassem e prendessem e não é que conseguiu os seus intentos,sentiu-se um homem envergonhado, naquela altura os palitos pagavam-se caro...

Mas o mundo ainda não aprendeu a conhecer o amor que bate nos corações menos inusitados e quantas e quantas afeições verdadeiras não ficaram pelo caminho, somente pela incompreensão de terceiros?

Como acontece aqui por vezes, o post tem as letras num azul difuso em cima de preto não consegui ler, assim; fiz copy, ficou em branco e li à vontade...haja invenção.

Muito, muito lindo e vou ler com mais calma.

beijinho da laura

Paixão Lima disse...

Daniel Filipe, um homem que teve a sorte de amar e ser amado. O amor existe, mas só os poetas como o Daniel o sabem valorizar e saborear. Nem que se ame aquilo que criamos, o longe e a quimera. Um belo texto que retrata tão bem o amor que o vulgar mortal tem dificuldade, na sua estúpida racionalidade, em compreender.
Parabéns DAD, pelo sentido de oportunidade em postar, em memória de um dia melancólico, um texto tão belo, que tão bem retrata o amor que só os poetas sabem sentir.
Um beijo.

Green Knight disse...

Sustenham os guardiões do mal.
O amor não é crime.É imperativo que
possa viver em liberdade.
Bjs
jrom

laura disse...

Ena, não era o Eça, tra o Camilo... Estive na casa deles pertinho de Famalicão... está tudo como antes...

DAD disse...

Queridos Amigos,

Obrigada pela vossa visita. Realmente o amor, tal como eu o concebo, ou como o esperava desde sempre, é um estar inatingível pois nós somos todos demasiadamente imperfeitos para conseguir que algum de nós seja capaz de corresponder às expectativas do outro. Por isso somos infelizes. Porque aspiramos as estrelas quando somos só conseguimos a imperfeição do pó.
Mas como ideais precisam-e....VIVA O AMOR!!!SEMPRE!!!

Je Vois la Vie en Vert disse...

Muito obrigada, Dadinha, pelas suas palavras carinhosas !
Eu tenho a certeza que ela está ao pé de Deus e está feliz. Por amor por mim, já me enviou raios de luz e de paz. As minhas lágrimas agora só podem ser de alegria porque não é isso que desejamos para os que amamos, que sejam felizes ?
Venho agradecer a tua amizade expressa nesse momento doloroso. Sabe sempre bem ter amigos que nos confortam.
Peço desculpa por não comentar o seu artigo. Voltarei cá quando regressar da Bélgica.
Beijinhos
Verdinha