segunda-feira, maio 26, 2008

Lembrando Vinicios de Morais


Operário em construção


Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De facto como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão ?
Tijolo ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia,
Com suor e com cimento,
Erguendo uma casa aqui,
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse facto extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia,
À mesa ao cortar o pão,
O operário foi tomado
De uma subita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno:
a gamela,
banco,
enxerga,
caldeirão,
Vidro,
parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo
o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
- Exercer a profissão -
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria,
Sua rude
mão de operário,
De operário em construção
E, olhando bem para ela
Teve num segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal como a sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão,
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão-
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
E um facto novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia “sim”
Começou a dizer “Não”
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita,
Era o prato do patrão
Que a sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que o seu macacão de zuzarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que a sua imensa fadiga
Era amiga do patrão
E o operário disse: Não !
E o operário fez-se forte
Na sua resolução
Como era de se esperar
As bocas da delacção
Começaram a dizer coisas

Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
“Convençam-no do contrário
Disse ele sobre o operário.
E ao dizer isto sorria.
Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se de subito cercado
Dos homens da delacção
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não !
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindivel
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
e dou-o a quem quizer.

Dou-te tempo de lazer,
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse e fitou o operário
Que olhava e reflectia
Mas, o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário viu casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objectos
Produtos, manufacturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca da sua mão.
E o operário disse:
Não !
- Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu ?
- Mentira ! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo da solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fracturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construido
O operário em construção.
(Vinícios de Morais)

sábado, maio 24, 2008

Vale a pena escutar com atenção...

Por estas e por outras se vê como, às vezes,
a(pseudo) crítica de arte funciona...

Neste caso, não são precisas palavras porque

as imagens mostram tudo...

Poema para o fim de semana...

Trespasse
Quem tiver sonhos,
guarde-os bem fechados
com naftalina — num baú inútil.
Por mim abdico desses vãos cuidados.
Deixai-me ser liricamente fútil!
Estou resolvido.
Vou abrir falência.
(Bandeira rubra desfraldada ao vento: "Hoje, leilão!")
Liquida-se a existência — por retirada para o esquecimento ...

Daniel Filipe

quinta-feira, maio 15, 2008

PEDE-SE QUE DIVULGUEM NOS VOSSOS BLOGS


Quinta-feira, 15 de Maio de 2008
Num tempo em que em Portugal tanto se fala de liberdade religiosa e andamos a promover o Diálogo inter-religioso, o que se passa no Irão?
Novas detenções no Irão: A lembrar os anos sombrios…
Seis dos sete membros do conselho informal que coordena as actividades da Comunidade Bahá’í no Irão (na ausência de uma Administração Bahá’í formal) foram detidos às primeiras horas do dia 14 de Maio. Segundo a informação divulgada pela Casa Universal de Justiça, funcionários do Ministério da Segurança em Teerão, entraram nas residências dos bahá’ís, procederam a buscas intensas, e posteriormente levaram os crentes para a tristemente famosa prisão de Evin, em Teerão.
Notícia completa no
  • POVO DE BAHÁ
  • quarta-feira, maio 07, 2008

    Estou contigo em Rockland...

    Carl Solomon! Estou contigo em Rockland
    Onde estás mais louco do que eu…

    Estou contigo em Rockland
    Onde deves sentir-se muito estranho…

    Estou contigo em Rockland
    Onde imitas a sombra da minha mãe…

    Estou contigo em Rockland
    Onde assassinaste as tuas doze secretárias…

    Estou contigo em Rockland
    Onde te ris com o teu humor invisivel…





    Estou contigo em Rockland
    Onde somos grandes escritores na mesma terrivel máquina de escrever…

    Estou contigo em Rockland
    Onde o teu estado é grave e foi anunciado na rádio…

    Estou contigo em Rockland
    Onde as faculdades do crâneo não admitem o acerto dos sentidos…

    Estou contigo em Rockland
    Onde bebes o chá, pelos seios das solteironas de Utica…

    Estou contigo em Rockland
    Onde tu fazes escárneo dos corpos das tuas enfermeiras, como se fossem os das harpias do Bronx…

    Estou contigo em Rockland
    Onde gritas numa camisa de forças, já que estás perdendo o ping-pong actual do abismo…

    Estou contigo em Rockland
    Onde golpeias, no piano catatónico da tua alma, que é inocente e imortal e não deveria morrer nunca, sem glória, num asilo…

    Estou contigo em Rockland
    Onde cinquenta eletrochoques suplementares nunca restituirão a tua alma ao seu Corpo, na sua peregrinação, senão a uma cruz no vazio…

    Estou contigo em Rockland
    Onde acusas os teus médicos de loucura e levantas a revolução socialista dos hebreus contra o Gólgota nacional fascista…
    Estou contigo em Rockland
    Onde quebrarás os céus de Long Island e ressucitarás o teu Jesús, humano vivo, da tumba sobre-humana….

    Estou contigo em Rockland
    Onde há vinte e cinco mil camaradas loucos, cantando todos juntos as estrofes finais da Internacional…

    Estou contigo em Rockland
    Onde abraçamos e beijamos os Estados Unidos debaixo dos nossos lençois, os Estados Unidos que tossem toda a noite e não nos deixam dormir…

    Estou contigo em Rockland
    Onde despertamos electrocutados do coma, pelos aeroplanos das nossas próprias almas que rugem sobre a açoteia, que foram despejando bombas angelicais.
    O hospital ilumina-se, derrubam-se muros imaginários ¡
    Oh! Legiões fracas,desapareçam!
    Legiões! Desapareçam!
    Oh! Trauma estrelado de misericordia, a guerra eterna é aqui ¡
    Oh! Vitória ¡ esquece a tua roupa interior!
    Somos Livres!

    Estou contigo em Rockland !
    Nos meus sonhos, caminhas desesperadamente depois de navegar pela autoestrada, através da América,

    chorando à porta da minha cabana, na noite do Ocidente…

    (ALLEN GINSBERG)

    quinta-feira, maio 01, 2008

    Que força é essa amigo?
    Que força é essa amigo?
    Que te põe de bem com outros
    e de mal contigo?
    Que força é essa Amigo?...
    Apesar dos tempos ruins que passamos
    em termos de TRABALHO,
    o meu voto vai para todos aqueles
    que ainda acreditam que um dia
    este mundo há-de mudar...
    Um bom 1º de Maio para todos!
    E, acima de tudo - Trabalho para todos!

    sexta-feira, abril 25, 2008

    Que este dia seja um dia infinitamente
    recordável pois foi muitooooooooo
    importante para todos.
    Haja o que houver, ninguém nos tira
    esse momento fantástico que foi a queda
    da ditadura, sem mortes nem loucuras
    grandes pelo meio.
    Que de sábios e loucos, todos temos um pouco...
    Ainda ontem a ouvir o Dr. Mários Soares
    o Mário Zambujal e outros, as recordações
    voltaram belas e sempre novas, como sempre
    as vemos os sonhos.
    Que esse momento único da nossa história possa
    um dia dar flores de trabalho, amor, compreensão
    entre todos nós.
    Dad

    quarta-feira, abril 23, 2008

    HOJE É O DIA MUNDIAL DO LIVRO!
    Chegou a internet, as bibliotecas on-line, os passeios pelas páginas pessoais de escritores e poetas que tanto gozo nos dão nas deambulações pelo espaço cybernáutico, mas há alguma coisa que nos devolva esse cheiro e esse tacto que nos dão os livros? O consolo de lermos boas páginas, saboreá-las e voltar atrás as vezes que nos apetecer, como que a deglutir um aroma ou um gosto mágico? Só o LIVRO nos consegue fazer passear a mente por todo o lado, conservando a possibilidade de ler e reler as vezes que nos aprouver, o seu conteúdo.
    Por muita virtualidade que exista, os livros, nossos amigos e nossos professores são uma relíquia e um conceito a preservar. Ainda bem que foi instituido um dia que lhes é dedicado. Só lamento que os livros estejam tão caros o que impossibilita que alguns cidadãos possam dar-se ao "luxo" de ler...
    Coisas que deviam ser vistas por quem pode... acho eu...

    De qualquer forma bom dia do LIVRO e muito boas leituras por aí...

    sexta-feira, abril 18, 2008

    Daniel Filipe


    Este foi um dos poetas que mais marcaram a minha juventude.

    Nessa altura eu ficava deslumbrada a declamar o poema

    "A Invenção do Amor".


    Ainda hoje este poema faz todo o sentido e só não o publico

    pela sua extensão.

    Espero, no entanto, que ao lerem este post, aqueles que não

    conhecem a obra do Daniel Filipe, procurem os seus poemas

    pois vale a pena conhecerem-no,

    Ele morreu muito novo.


    E aqui fica uma pitada dos seus belos poemas.


    Este, reza assim...


    Como açucena, abre-se o teu rosto
    Por sobre a doce, tímida paisagem;
    Serena imagem
    Na manhã de Agosto.

    Como magnólia, vertes o perfume
    Das tuas ancas sobre o pinheiral;
    Ávido de lume,
    Casto e sensual.

    Como pinho selvagem, te recebo
    E amo no chão de areia ensolarado;
    Ingénuo efebo,
    Deslumbrado.

    Daniel Filipe
    Desejo-vos um óptimo fim de semana,
    apesar da chuva...

    sexta-feira, março 28, 2008

    Aprendizagem urgente



    "O que me preocupa,
    não é o grito dos violentos,
    nem dos corruptos,
    nem dos desonestos,
    nem dos sem carácter,
    nem dos sem ética...

    O que mais me preocupa,
    é o silêncio dos bons!"
    Martin Luther King

    quinta-feira, março 27, 2008

    Hoje à tarde, em Lisboa...


    Hoje ao deambular por Lisboa, percorri ruas
    onde existiam as tabacarias pessoanas
    e recordei-o...
    Aqui e agora o relembro
    com um poema que foi muito
    importante para mim,
    Dad

    A TABACARIA
    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real,
    certa, desconhecidamente certa,
    com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua,
    como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho,
    como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa,
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.

    Saio da janela, sento-me numa cadeira.
    Em que hei-de pensar?
    Que sei eu do que serei,
    eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

    Génio?
    Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?,
    nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim... Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas,

    -Sim,verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela; Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordámos e ele é opaco,
    Levantámo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;come chocolates!)
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.
    (Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,)
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos
    invoco a mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.
    Vivi, estudei, amei, e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, E penso:
    talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
    Fiz de mim o que não soube,
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas
    qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos
    e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é
    uma consequência de estar mal disposto.
    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira.
    Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria
    (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
    (O dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus gritei-lhe
    Adeus ó Esteves!,
    e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança,
    e o dono da Tabacaria sorriu.
    Álvaro de Campos
    (Fernando Pessoa)
    (15-1-1928)

    quarta-feira, março 19, 2008

    CURIOSIDADES...


    Porque é que a Pascoa é tão cedo este ano?
    A Páscoa é sempre o primeiro Domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio de Primavera (20 de Março). Esta datação da Páscoa baseia-se no calendário lunar que o povo hebreu usava para identificar a Páscoa judaica, razão pela qual a Páscoa é uma festa móvel no calendário romano.
    Este ano a Páscoa acontece mais cedo do que qualquer um de nós irá ver alguma vez na sua vida! E só os mais velhos da nossa população viram alguma vez uma Páscoa tão temporã (mais velhos do que 95 anos!).
    1) A próxima vez que a Páscoa vai ser tão cedo como este ano (23 de Março) será no ano 2228 (daqui a 220 anos). A última vez que a Páscoa foi assim cedo foi em 1913.
    2) Na próxima vez que a Páscoa for um dia mais cedo, 22 de Março, será no ano 2285 (daqui a 277 anos). A última vez que foi em 22 de Março foi em 1818. Por isso, ninguém que esteja vivo hoje, viu ou irá ver uma Páscoa mais cedo do que a deste ano.

    sexta-feira, março 07, 2008

    Para ler e pensar bem sobre o assunto...


    O Dia da Mulher é amanhã, ou deveria ser todos os dias?
    Dad

    Mais de um quarto das mulheres portuguesas são inteiramente dependentes do rendimento dos seus companheiros, de acordo com um estudo da Universidade de Coimbra (UC) que avaliou a dependência da população feminina.

    Realizado pelo Centro de Estudos Sociais da UC em 2006, a pesquisa baseou-se na análise do Inquérito ao Rendimento das Famílias do Instituto Nacional de Estatística (INE), sendo, por isso, representativo da população portuguesa.
    Em declarações à agência Lusa na véspera do Dia Internacional da Mulher, Lina Coelho, autora do estudo, considerou que a tendência de longo prazo aponta para uma diminuição do número de mulheres dependentes, mas sublinhou que, nos últimos anos, não tem havido uma redução.
    «Há cada vez mais mulheres a desejar e a concretizar o desejo de ter uma actividade remunerada. Contudo, tendo em conta a crise económica dos últimos três ou quatro anos, há o risco de desaceleração da melhoria da situação económica das mulheres», afirmou a investigadora, adiantando que o aumento do desemprego está a afectar mais as mulheres do que os homens.
    Segundo dados do INE relativos a 2007, mais de 2,8 milhões de mulheres portuguesas encontram-se inactivas, um número que não abrange as desempregadas. Quase dez por cento (225 mil) têm entre 25 e 44 anos.
    Do total de inactivas (um conceito que inclui estudantes, domésticas e reformadas), mais de meio milhão são donas de casa. No entanto, entre as que trabalham também podem existir casos de dependência económica parcial relativamente aos companheiros, uma vez que continuam a registar-se discrepâncias acentuadas no rendimento médio mensal de mulheres e homens.
    Os dados do INE referentes ao ano passado revelam que eles ganham, em média, mais 137 euros do que elas, uma diferença que aumenta com a qualificação profissional. Entre os quadros superiores da Administração Pública e dirigentes de empresas, as mulheres ganham, em média, 1396 euros, menos 345 do que os colegas do sexo masculino.
    Já nas profissões intelectuais e científicas, elas são penalizadas em 296 euros. Quando se trata de trabalho não qualificado, a diferença fica-se pelos 134 euros, em média. Embora tenha vencimentos mais baixos, a população feminina é mais qualificada: no último trimestre de 2007, mais de 430 mil mulheres com formação superior estavam integradas no mercado de trabalho, para apenas 311 mil homens.
    «Apesar da maior qualificação das mulheres, as diferenças salariais têm tido tendência a manter-se no tempo, sendo uma realidade muito mais marcante no sector privado. Não vejo perspectivas de que se estejam a esbater», afirma Lina Coelho.
    Para a investigadora da Universidade de Coimbra, o facto de as mulheres continuarem a assegurar quase em exclusivo as tarefas de apoio à família faz com que sejam «mais ausentes do trabalho e que tenham mais quebras na sua prestação», o que acarreta «custos para os empregadores e se reflecte no salário».
    Por semana, os homens estão no emprego, em média, 37 horas, mais quatro do que as suas colegas, segundo estatísticas do INE. Entre os que passam mais horas no local de trabalho (41 ou mais), quase 600 mil são homens e pouco mais de 280 mil são mulheres.
    «Seria preciso que a sociedade no seu todo mudasse bastante, com uma partilha efectiva de tarefas domésticas e familiares, para esbater a diferença a nível salarial e de disponibilidade para o trabalho», comentou a investigadora da Faculdade de Economia de Coimbra.
    Actualmente, mais de metade das tarefas domésticas continuam a ser realizadas exclusivamente pelas mulheres, sem ajuda dos maridos ou companheiros, que desempenham sozinhos apenas 17 por cento dos trabalhos em casa, de acordo com um estudo do Instituto de Ciências Sociais, divulgado em Setembro do ano passado. «A sociedade teria de arranjar formas de compensar os empresários para suportarem os custos adicionais de contratar mulheres», concluiu
    Lina Coelho.
    Lusa/SOL

    sábado, março 01, 2008

    De súbito, as luzes apagam;
    A música irrompe;
    A cortina abre...
    O Homem... ali...
    Um homem que gostava da Primavera
    e do cheiro dos campos floridos.
    Uma secretária fria,
    um tinteiro e uma caneta
    e livros incontáveis de folhas em branco
    para escrever e
    vários carimbos, muitos...
    que a vida de cada um de nós é feita de carimbos.
    E a miséria, a distância, a falta de amor,a doença, a incompreensão
    com que se matam aqueles que não conseguem alinhar completamente
    pelo politicamente correcto.
    Um homem, uma família em perda, uma alma sofrida
    e o sistema - o Big Brother que nos controla a todos
    e nos corrói a alma.
    Finalmente o Amigo - o Amigo!
    aquele que ouve e compreende; o Amigo que
    não precisa de fazer perguntas para ajudar;
    o Amigo que está ali, pé firme para o que der e vier...
    e ANGÚSTIA sempre presente...
    O SISTEMA a controlar,
    O SISTEMA a exigir,
    O SISTEMA a condenar,
    O SISTEMA a aniquilar!
    E um único Amigo!
    Amigo que acaba por sucumbir ao Sistema!
    UM HOMEM ABSOLUTAMENTE SÓ
    IRREMEDIAVELMENTE SÓ !
    E as ilusões perdidas - do futuro, da família, do trabalho,
    da subsistência, do amor, do companheirismo...
    Só resta o AMIGO
    que finalmente reencontra, fora do espaço e do tempo,
    num espaço e num tempo onde já não há necessidade
    de sentir o perfume das flores às escondidas
    porque não há ninguem a controlar.
    Num tempo em que é tempo de ir ver o mar
    que nunca tinha sido possível ver...
    e viajar pela liberdade, como se fosse um pássaro...
    Não vou escrever mais sobre a peça que está em cena e que estreou
    ontem no Teatro Lurdes Norberto, em Linda-a-Velha, com a encenação
    magistral do meu amigo Armando Caldas.
    Ontem não contive as lágrimas muitas vezes.
    Acho que todos nós nos revemos um pouco no
    Senhor Crock
    a personagem central da peça "O TINTEIRO"
    da autoria do autor espanhol Carlos Muñiz.
    Todos nos sentimos, uns mais do que outros, encurralados
    nesta Sociedade feita para humanos, com regras desumanas.
    O Big Brother espia os nossos actos e na nossa vida.
    Quantas vezes já sentimos que não somos capazes de carregar o fardo
    que não somos compreendidos e nos refugiamos, simplesmente
    na esperança de um destino final
    lindo e libertador?
    Ontem senti-me Crock algumas vezes
    e chorei, não sei se por mim se pelo sistema
    que construimos e que, no entanto, não
    consegue fazer felizes a grande maioria dos cidadãos...
    mas isso são outros contos...
    VÃO AO TEATRO DE LINDA A VELHA
    VÃO VER O "TINTEIRO"
    Vão ver que vão sair de lá mais conscientes
    do vosso papel como homens e mulheres.
    Não tenham medo de chorar como eu
    porque isso é bem humano.
    E não se esqueçam de agradecer ao Armando Caldas
    e a todos os Artistas, o excelente espectáculo
    que nos proporcionam e que nos ajuda a
    lembrar que continuamos a ter que
    lutar contra tudo aquilo
    que pode matar a dignidade humana!
    Abraço para todos!
    Dad

    sexta-feira, fevereiro 29, 2008

    Como, infelizmente, ainda não chegou o tempo em que não existem diferenças, continuamos a tentar que o mundo não esqueça que o homem e a mulher devem ter, direitos, deveres e oportunidades iguais.

    Assim, não podemos esquecer-nos daquelas que estão muitíssimo pior do que nós.

    Sejamos solidários!

    Se quiser pode copiar este post e colocá-lo no seu blog, porque eu não vou importar-me com isso.
    O que é preciso é divulgar!

    quinta-feira, fevereiro 28, 2008

    A net, a pornografia e as crianças


    Portugal carente

    Recebi este pedido por mail.
    Sendo um assunto tão sério, acho que devo
    partilhar convosco, esperando que aqueles
    que passam por aqui e que morem perto
    desta Instituição, possam ajudar.
    É aflitivo! Cada vez nos chegam mais
    mensagens do teor desta...
    Neste País há gente a passar mesmo muito mal.
    E as crianças, Senhor! Porque precisarão sofrer assim?

    terça-feira, fevereiro 26, 2008

    Rasgaram o meu coração e vesti-me de luto.
    A flor amachucada que brilhava no meu peito,
    Rendeu-se aos sinais da tristeza,
    e murchou, envergonhada...

    Nos dias de silêncio, cantei para dentro de mim,
    Canções antigas que soluçavam ao ritmo do desgosto.
    O dia seguinte amanheceu cheio de pássaros esvoaçantes
    na alvorada pequenina que nasceu, de súbito.

    De súbito?!
    Foi há muito tempo…
    Era uma vez uma rapariga cheia de sonhos, contava-se…
    Ó menina, os sonhos morrem quando nasce a madrugada!

    Vista-se de sol e salte para a rua.
    Se for dia olhe o Sol!
    Se for noite, olhe a Lua!

    Era uma vez uma rapariga cheia de sonhos…perdidos…

    quinta-feira, fevereiro 21, 2008



    Para o meu coração, basta o teu peito.
    Para a tua liberdade, bastam as minhas asas.

    Da minha boca, chegaram até ao céu,
    o que estava adormecido sobre a tua alma…
    és, em ti, a ilusão de cada dia...

    Chegas como o orvalho beija as pétalas.

    Magoas o horizonte com a tua ausência,

    Eternamente em fuga, como uma onda...


    Disse-te que cantavas ao vento,
    como o fazem os pinheiros e os eucaliptos….....
    Como eles és alta e taciturna.
    E entristeces de imediato...como numa viagem...
    ….
    És acolhedora, como um velho caminho.
    Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
    ...
    Eu despertei e, às vezes, emigram e fogem pássaros
    que dormiam na tua alma.
    Pablo Neruda

    (tradução livre de Dad)